Ainda que extremos climáticos cada vez mais frequentes venham desafiando a produção agroecológica, a atividade segue sendo a principal fonte de renda de 500 famílias assessoradas pelo Centro Ecológico na Serra e Litoral Norte do Rio Grande do Sul. É por meio delas que são reafirmados os ideais sociais e ambientais do grupo de jovens técnicos que, 40 anos atrás, fundou a ONG no interior do município de Vacaria.
Conforme o agrônomo Laércio Meirelles, no livro Vozes da Agricultura Ecológica, em resposta ao crescente uso de agrotóxicos, algumas pessoas ligadas à Associação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG), representantes da Amigos da Terra no Brasil, organizaram uma propriedade rural sob um novo modelo produtivo. “A essa propriedade, à época chamada de Fazenda Modelo, deu-se o nome de “Projeto Vacaria”, que começou a desenvolver o trabalho em 1985.”
Apoio internacional e hiperlocal
Liderado pela agrônoma Maria José Guazzelli e apoiado pela fundadora da organização sueca Terra do Futuro, Birgitta Wrenfelt, o projeto de caráter experimental, evoluiu, em 1988, para uma organização de assessoria técnica à agricultura familiar da região de Ipê e Antônio Prado.
Aos poucos, contando também com o apoio de padres ligados à Pastoral da Terra da Igreja Católica, especialmente do Padre João Bosco Schio, a proposta conquistou algumas famílias da Serra, antes de chegar ao Litoral, no início dos anos 1990.
“Nós íamos nas comunidades fazer os encontros ( onde se falava sobre os impactos dos agrotóxicos). Acompanhei muito estas andanças e depois sempre estive em contato durante os anos seguintes, antes de ficar padre, eu acompanhava por demais o trabalho que era desenvolvido pra lá e pra cá”, recorda o Padre Remi Casagrande.
Pioneiros
Foi numa destas reuniões comunitárias que o jovem agricultor Nelson Bellé conheceu os princípios da agricultura ecológica. Ele relata que, durante a palestra, levantou a mão inúmeras vezes para fazer perguntas. Como resultado, a família Bellé foi uma das primeiras a adotar o sistema produtivo. “Foram momentos não tão tranquilos assim, porque a gente enfrentou uma situação que a sociedade não acreditava no projeto do Centro Ecológico”. Os Bellé então, assim como outras famílias ecologistas, foram alvo de preconceito por não usarem venenos.
Mas o tempo passou e mais famílias aderiram e conseguiram fazer a transição. Hoje 233 famílias do Núcleo Serra Gaúcha da Rede Ecovida de Agroecologia são registradas no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos. Elas estão organizadas em 30 grupos e há 30 agroindústrias ecológicas em funcionamento na região. No Núcleo Litoral Solidário, são 268 famílias no CNPO, distribuídas em 46 grupos e há 10 agroindústrias.
Alguns impactos
Nos dois núcleos, o trabalho de agroecologistas tende a preservar e recuperar a biodiversidade da Mata Atlântica, em sistemas agroflorestais regularizados junto à Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema).
Outro efeito visível é sobre merenda escolar da rede pública de diversos municípios, que podem optar pela inclusão de mais alimentos orgânicos disponibilizados, via licitação, pela Cooperativa de Produtores Econativa. Em Ipê, onde a cooperativa reúne 40 famílias de dez municípios, o percentual de orgânicos na merenda, dependendo da época do ano, pode atingir mais de 60%.
Mateadas divulgam Festa dos 40 anos
- 24/09/2025 – Mateada convida público da maior feira orgânica do Brasil para os 40 anos do Centro Ecológico https://www.centroecologico.org.br/noticias/1499
- 22/05/2025 – Mateada e histórias da agroecologia no RS divulgam os 40 anos do Centro Ecológico https://www.centroecologico.org.br/noticias/1480

