A agrônoma Maria José Guazzelli, fundadora da ONG que difundiu os conceitos e práticas da agricultura ecológica a partir da Serra e depois no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, recebeu no final do dia 20 de maio de 2026 em Porto Alegre, a Medalha do Mérito Farroupilha.
- Para ouvir esta notícia, na voz de Remi Gottardo Casagrande, clique no link:https://on.soundcloud.com/Stbf5AQWsGAu6nnfb6
Considerada a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a homenagem foi proposta pelo deputado estadual Pepe Vargas em reconhecimento ao trabalho iniciado em 1985 no então distrito de Ipê, em Vacaria e que hoje acompanha o trabalho de aproximadamente 80 grupos de agricultura ecológica.
Durante a cerimônia, realizada no Salão Nobre Júlio de Castilhos, foram destacados o pioneirismo de Maria José na construção da agroecologia no estado, a participação na elaboração da Lei dos Agrotóxicos do Rio Grande do Sul, nos anos 1980, e atuação na criação de experiências de produção ecológica, organização de agricultores e formação de mercados para alimentos sem agrotóxicos.
Em seu pronunciamento, agrônoma destacou que recebia a homenagem como reconhecimento de uma caminhada coletiva, construída ao lado de agricultoras e agricultores, movimentos sociais, entidades e consumidores que acreditaram na agroecologia como alternativa social, ambiental e econômica. Também defendeu a necessidade de políticas públicas permanentes para a agricultura ecológica, a preservação da biodiversidade, a defesa das sementes como patrimônio dos povos, e a autonomia das famílias agricultoras.
Presenças
Familiares, pessoas amigas, agricultores, agricultoras, representantes de movimentos sociais, agroindústrias familiares, entidades ambientalistas, de consumidores e de agroecologia, além de autoridades públicas, prestigiaram a cerimônia. Dentre as autoridades de Ipê, estiveram presentes o prefeito, José Mário Grazziotin, a vereadora Janete Pauletti e o secretário municipal da Agricultura, Fabiano Lovatel.
Estavam também José Cleber Dias de Souza, superintendente do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) no Rio Grande do Sul, representantes das deputadas federais Denise Pessoa e Maria do Rosário Gilmar Vieira e o representante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar RS (Fetraf-RS) Luiz Carlos Scapinelli.
Co-fundadora
Por meio de Birgitta Wrenfelt, a organização Terra do Futuro, que também começava a se estruturar na Suécia, desde o início conheceu e apoiou o trabalho do Centro Ecológico junto às famílias agricultoras. Birgitta faleceu em 2019, e é considerada co-fundadora do Centro Ecológico.
Transmissão em vídeo da outorga da Medalha do Mérito Farroupilha a Maria José Guazzelli: https://www.youtube.com/live/Yxg5vX6Dhrk?si=EFSjFp27Y6c_ccW9
Comentários e publicações
- Coluna semanal de Leonardo Melgarejo. Leia no Brasil de Fato:https://tinyurl.com/mtyhc7fa
- Arquivo do deputado Pepe Vargas: https://pepevargas.com.br/tag/maria-jose-guazzelli/
- Perfil da Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), um vídeo de 1997: https://www.facebook.com/share/v/17p9ksyGU6/
- Comentários na página do Centro Ecológico, no Facebook: https://www.facebook.com/share/p/1Cbo3E11TL/
- Página da Prefeitura de Ipê: https://www.facebook.com/share/p/1FEwsNEBsM/?mibextid=wwXIfr
Transcrição do pronunciamento da homenageada
Boa noite para todos e todas vocês. Eu quero dar um abraço em cada um daqui a pouco, mas é um momento de bastante emoção para mim, assim, porque ver essa luta de tanto tempo ser reconhecida publicamente, é uma alegria bem grande. E eu quero começar saudando então o deputado Pepe Vargas. Saudar o nosso prefeito municipal, o José Mário Grazziottin, o nosso secretário da agricultura de Ipê, o Fabiano Lovatel, a nossa vereadora de Ipê, Janete Pauletti, e saudar todos os que estão aqui presentes, e dizer que, receber a Medalha Farroupilha.
A Medalha do Mérito Farroupilha, é uma honra muito grande para mim. E eu recebo essa medalha entendendo que ela homenageia uma caminhada coletiva, tendo como referência o Centro Ecológico. Mas é um trabalho coletivo, né? Me lembro quando eu conversei com o deputado Pepe que ele me falou, eu disse: “Mas eu acho que não é justo. Eu acho que o justo é todas as mãos que contribuíram para isso receberem a medalha”. Aí ele me disse: “Mas um indivíduo tem que receber, não dá para dar para todo mundo”.
Então, grata, deputado. E essa caminhada, ela foi construída ao lado de agricultores, de agricultoras, de colegas, de movimentos sociais, de entidades consumidoras, e de tanta gente que ao longo das últimas décadas acreditou que um outro tipo de agricultura era possível.
Eu comecei essa caminhada e em relação a esse tipo de agricultura ainda na faculdade. Leonardo (Melgarejo), meu colega de faculdade aqui, é testemunha disso, Nós estamos fazendo 50 anos de formados esse ano, então já é uma caminhada de algumas décadas. Mas desde aquela época eu nunca tive dúvidas de que era isso mesmo que eu queria fazer da minha vida.
E em tempos hoje tão difíceis para a humanidade, marcados por crise crises climáticas, ambientais, econômicas, alimentares, sanitárias, guerras, desigualdades sociais, crescentes, eu poder me dedicar a um trabalho que busca produzir saúde, preservar a natureza e melhorar a convivência entre as pessoas é uma coisa muito gratificante para mim.
Eu não saberia, e sinceramente eu não gostaria, de ter feito outra coisa na minha vida profissional. Eu acho que esse caminho que eu escolhi é o caminho que eu escolheria de novo, se fosse o caso. E a agroecologia me ensinou que produzir alimentos não é só uma questão técnica ou econômica, é também uma escolha ética, uma escolha social e uma escolha política.
A forma como produzimos alimentos interfere diretamente na saúde das pessoas, na qualidade da água, do solo, do ar, na preservação da biodiversidade e até na possibilidade de construirmos sociedades mais justas e solidárias.
Eu acredito profundamente que a agricultura ecológica pode ajudar a enfrentar parte importante das crises que a gente vive hoje. Ela não é uma solução mágica, mas certamente é uma ferramenta concreta para cuidar da natureza, fortalecer a soberania alimentar, gerar renda com dignidade, produzir alimentos saudáveis para a população e dar o devido valor a quem produz os alimentos.
Também aprendi que não basta apenas a iniciativa individual das famílias agricultoras. A gente precisa de políticas públicas consistentes e permanentes. Precisamos de apoio à transição agroecológica, à pesquisa, assessoria técnica, à comercialização e a educação. Nós precisamos defender o direito das pessoas a uma alimentação saudável e o direito das famílias agricultoras à autonomia.
Hoje, uma das grandes preocupações é a crescente concentração no controle das sementes e das tecnologias usadas na agricultura, que está nas mãos de poucas corporações. As sementes representam um patrimônio construído por gerações de homens e mulheres, especialmente as mulheres, ao longo dos milênios da história da humanidade. Então, defender a liberdade de poder guardar, multiplicar e compartilhar sementes é defender a biodiversidade, a cultura, a soberania e o nosso futuro.
Nós também precisamos estar atentos às ameaças de erosão genética e a perda da diversidade agrícola, justamente no momento em que as mudanças climáticas tornam essa diversidade ainda mais imprescindível, especialmente aqui no Rio Grande do Sul, com a tragédia que nós vivemos com as enchentes do ano retrasado, erosão genética é uma coisa bastante grave.
O Centro Ecológico segue comprometido com essas mudanças necessárias. Nós continuamos acreditando numa agricultura baseada no cuidado com a vida, na cooperação, no respeito aos limites da natureza e na valorização das pessoas.
Eu quero agradecer a minha família, especialmente meu pai, que deu um espaço físico pra gente começar a trabalhar lá 40 e tantos anos atrás. E quero agradecer o meu pai na pessoa da minha tia Marta, a irmã mais nova dele, que está aqui hoje, fez um esforço de vir da Vacaria até Porto Alegre. Quero agradecer meu companheiro de jornada de tantas décadas, o Flávio, meus amigos, meus colegas de caminhada e quero agradecer um carinho, com um carinho especial à equipe de trabalho do Centro Ecológico. Para mim, enquanto coordenadora do Centro Ecológico, é uma segurança e uma satisfação poder contar com uma equipe tão legal como a que nós temos. Quero agradecer o deputado Pepe Vargas pelo apoio a essa proposta da agricultura que começou lá quando ainda era prefeito de Caxias, né, auxiliando nas primeiras coisas de comercialização de produtos ecológicos, especialmente deputado, por ter sido na época deputado federal o autor do projeto de lei que deu a Ipê o título de Capital Nacional da Agricultura Ecológica, graças ao seu trabalho.
Também quero agradecer a atual gestão municipal da prefeitura em Ipê, na pessoa do nosso prefeito, pelo apoio consistente que a gente tem tido nesses últimos anos. Mas principalmente eu quero agradecer às agricultoras, aos agricultores que confiaram e confiam nessa construção coletiva ao longo de mais de 40 anos.Com eles e com elas eu aprendi, ensinei, mas sobretudo aprendi muita coisa e muito do que nós conseguimos fazer nasceu da coragem dessas pessoas. Então eu agradeço pela possibilidade da convivência enriquecedora ao longo dessa trajetória de décadas.
Eu recebo essa homenagem com muita gratidão, mas também com um compromisso. O compromisso de seguir fazendo o que nós sempre quisemos e buscar fazer cada vez mais enquanto centro ecológico, que é cuidar da vida, da terra e do nosso futuro. Muito grata.

