O Centro Ecológico apresentou seis experiências agroecológicas no Tapiris de Saberes do 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em Juazeiro/BA, entre os dias 15 e 18 de outubro. As experiências abordaram a transição tecnológica da Rede Ecovida, a história do grupo Filhas da Terra, do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), o manejo de abelhas nativas em escolas públicas, educação ambiental por meio de análise de substratos para plantas, a trajetória da Cooperativa Econativa e o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças na Serra Gaúcha.
Tapiri, de acordo com o website do CBA, é uma palavra indígena do tronco tupi utilizada por diversos povos tradicionais na região Norte do Brasil. Significa lugar onde as pessoas se reúnem para compartilhar ideias, comida, inovações e experiências. No 13º CBA, havia cinco espaços para apresentação dos mais de 2.700 trabalhos de selecionados. Autores e coautores tinham entre 8 e 10 minutos para apresentar seus resumos, classificados em 19 eixos temáticos.
Para Gabriela Garcia, que apresentou o trabalho sobre o grupo Filhas da Terra, a participação nestes espaços é fundamental. “É onde nos atualizamos em relação aos debates da agroecologia, sobre as políticas públicas, conhecendo outras vivências e organizações. Além de levarmos o nosso trabalho e a rica experiência dos agricultores aqui do Sul que inspiram a todos e todas”.
O colega Joaquim Martins, responsável pelas apresentações sobre educação ambiental, também destacou o compartilhamento de experiências com pessoas de todo o Brasil como forma de ampliar conhecimentos e fortalecer redes de colaboração. Durante o Congresso, ele acompanhou a discussão em torno do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). Promovido pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o debate destacou a necessidade de políticas públicas que articulem, de forma intersetorial, a agroecologia, a conservação da biodiversidade, soberania e segurança alimentar e nutricional.
Além do Congresso, a equipe visitou o Centro de Formação Dom José Rodrigues (CFDJR), do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) e a propriedade de Ana e Anelson (Anselmo), da Rede de Agroecologia Povos da Mata. Em pleno sertão, a família produz hortaliças, faz manejo de abelhas nativas, compostagem, e armazena água por meio de sistemas de cisternas. Eles também fazem o recatingamento, uma prática de reviver e preservar a caatinga. Conforme Garcia, essas práticas mostram que é possível produzir e resistir no semiárido por meio da agroecologia, garantindo alimentos de qualidade e fortalecendo modos de vida sustentáveis.
Escrito com assistência de ferramenta de Inteligência Artificial
Descrição dos trabalhos apresentados
- Eixo Temático: Gênero, Feminismos e Diversidades na Construção Agroecológica
- Eixo Temático: Educação em Agroecologia
- Eixo Temático: Inovações Camponesas e Tecnologias Sociais promovendo agroecologia
- Eixo Temático: Sistemas Agroalimentares e Economia Solidária
- Eixo Temático: Manejo de Agroecossistemas
Apresentação de um resgate da trajetória histórica do grupo Filhas da Terra, da comunidade do Morro Azul – Três Cachoeiras, vinculado ao Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), destacando o protagonismo feminino na construção do trabalho com plantas medicinais e na consolidação da agroecologia no Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
Cuidado e manejo das abelhas nativas sem ferrão – apresentação das ações de educação agroecológica em quatro escolas públicas municipais e estaduais de ensino fundamental no Litoral Norte do Rio Grande do Sul desde 2025, envolvendo estudantes do 4º ao 9º ano, que impactaram diretamente cerca de 120 pessoas da comunidade escolar. O projeto tornou-se um tema gerador de práticas educativas, favorecendo a construção de uma consciência ecológica e fortalecendo a educação agroecológica no ambiente escolar, em parceria com o Centro Ecológico.
Educação ambiental por meio de análise de substratos para plantas – O trabalho tem como objetivo estimular os jovens da Escola Estadual de Ensino Fundamental Dom José Baréa no município de Três Cachoeiras-RS, a reflexão sobre educação ambiental e agroecologia, aproximando os diálogos entre os saberes cotidianos e científicos com uma proposta de formação interdisciplinar. Desenvolvido com alunos(as) do 4° ano, utilizou-se a pesquisa-ação, que uniu prática e reflexão crítica sobre as ações. A atividade experimental consistiu no cultivo de alface crespa em dois tratamentos: substrato comercial e composto orgânico produzido na escola, com observações semanais baseadas em medidas físicas das plantas. O uso de métricas empíricas da pesquisa científica no cotidiano escolar favoreceu o desenvolvimento de habilidades críticas, analíticas e colaborativas, fortalecendo o senso de cidadania e princípios de sustentabilidade para uma formação agroecológica.
Processo de transição tecnológica da Rede Ecovida – O trabalho teve como objetivo apresentar o processo de transição tecnológica vivenciado pela Rede Ecovida, desde os desafios iniciais de gestão até a concepção e desenvolvimento do novo sistema Speco, baseado no Tryton ERP. A metodologia do trabalho foi dividida em cinco etapas: (1) Diagnóstico das ferramentas necessárias e que estavam em uso; (2) Definição de uma estrutura para o desenvolvimento tecnológico participativo; (3) Montagem de uma instância para testes e validação do sistema; (4) Condução de oficinas de formação e socialização das ferramentas; e (5) Migração das informações da Rede Ecovida, e lançamento do sistema de gestão Speco. A construção do Ecossistema Digital da Rede Ecovida foi um processo inerentemente participativo. Muito distante dos processos tradicionais de desenvolvimento de software. O trabalho demostra a possibilidade de construção tecnológica adaptativa focada no processo de aprendizado dos agentes envolvidos.
Trajetória da Cooperativa Econativa de Produtores Ecologistas – O trabalho apresentou a trajetória da Econativa em seus 20 anos de atuação, evidenciando o papel das vendas institucionais, especialmente por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), no fortalecimento da agricultura familiar agroecológica. As vendas institucionais são o principal canal de comercialização, da cooperativa, priorizando alimentos oriundos da agricultura familiar e contribuindo para a promoção da segurança alimentar e nutricional de pessoas em situação de vulnerabilidade social e de alunos de escolas públicas no Sul do país. Além disso, a experiência fortalece a cooperativa e possibilita às famílias associadas diversificação produtiva e geração de renda.
Sistema de Plantio Direto de Hortaliças na Serra Gaúcha – Este trabalho teve como objetivo implantar o SPDH em propriedades agroecológicas da Serra Gaúcha para promover a sustentabilidade e a resiliência nos sistemas produtivos familiares. O SPDH, que minimiza o revolvimento do solo e utiliza plantas de cobertura e rotação de culturas, é importante para a agroecologia por conservar a estrutura e a fertilidade do solo, reduzir insumos externos e contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas.
A metodologia incluiu o preparo do solo com subsolagem e gradagem, implantação de aveia-preta no inverno e mistura de leguminosas e gramíneas no verão, monitorando germinação, desenvolvimento vegetal e controle de plantas espontâneas.
Os resultados indicaram melhora da qualidade do solo, maior produção de biomassa e controle efetivo de plantas espontâneas, embora desafios como adaptação de equipamentos e acesso a sementes persistam. Conclui-se que o SPDH é eficaz para fortalecer sistemas agroecológicos na região, garantindo sustentabilidade e redução de custos.

